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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

...

Heathcliff: Como você pode estar frente a mim e fingir que não se lembra?
Fingir que não sabe que meu coração se parte por você?
Que seu rosto é uma luz queimando em meio à escuridão?

Cathy:
Heathcliff, pare, eu te proíbo.


Heathcliff:
Você proíbe o que seu coração está dizendo?

Cathy:
Ele não está dizendo nada.


Heathcliff: Eu estou escutando, mais alto que a música. Oh Cathy...

Cathy: Eu não sou a Cathy que era antes.
Você entende isso? Sou outra pessoa.
Sou a esposa de outro homem, ele me ama e eu o amo.

Heathcliff: Se ele te amasse com todas as forças de sua alma por uma vida inteira, ainda assim ele não te amaria tanto quanto eu te amo num único dia.

(O Morro dos ventos uivantes)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011


Sei que eu mesma não presto.
Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter;
e se houver essa palavra, para submeter os outros.
Não sei porque nasceu em mim desde sempre a idéia profunda
de que sem ser a única nada é possível.
Talvez minha forma de amor seja nunca amar
senão as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada.


Clarice Lispector

Chanson


Disse a meu peito, a meu pobre peito:
- Não te contentas com um só amante?
Pois tu não vês que êste mudar constante
Gasta em desejos o prazer do amor?

Êle respondeu: - Não! não me contento;
Não me contento com um só amante.
Pois tu não vês que êste mudar constante
Empresta aos gozos um melhor sabor?

Disse a meu peito, a me pobre peito:
- Não te contentas desta dor errante?
Pois tu não vês que êste mudar constante
A cada passo só nos traz a dor?

Êle respondeu: - Não! não me contento,
Não me contento desta dor errante...
Pois tu não vês que êste mudar constante
Empresta às mágoas um melhor sabor?

Tradução de Castro Alves-Alfred du Musset

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Há uma solidão no céu,
uma solidão no mar
e uma solidão na morte.
Mas fazem todas companhia
comparadas a este local profundo,
esta polar intimidade,
uma Alma que reconhece a Si mesma:
finita infinidade.


Emily Dickison
Estou ouvindo música.
Debussy usa as espumas do mar morrendo na areia,
refluindo e fluindo.
Bach é matemático.
Mozart é o divino impessoal.
Chopin conta a sua vida mais íntima.
Schoenberg, através de seu eu,
atinge o clássico eu de todo o mundo.
Beethoven é a emulsão humana em tempestade
procurando o divino e só o alcançando na morte.
Quanto a mim, que não peço música,
só chego ao limiar da palavra nova.
Sem coragem de expô-la.
Meu vocabulário é triste e às vezes
wagneriano-polifônico-paranóico.
Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere.
Sou uma paisagem cinzenta e azul.
Elevo-me na fonte seca e na luz fria.

(Clarice Lispector)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Quando fico a pensar poder deixar de ser
antes que a minha pena haja tudo traçado,
antes que em algum livro ainda possa colher
dos grãos que semeei o fruto sazonado;

quando vejo na noite os astros a brilhar
- vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! -
quando penso que nunca hei de poder traçar
sua imagem com arte e em sentido profundo;

quando sinto a fugaz beleza de alguma hora
que não verei jamais - como doce miragem –
turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora

um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem
do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada
até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada!

John Keats( inglês - 1795-I82l )

SONHO VAGO

Um sonho alado que nasceu num instante,
Erguido ao alto em horas de demência...
Gotas de água que tombam em cadência
Na minh’alma tristíssima, distante...
Onde está ele o Desejado? O Infante?
O que há de vir e amar-me em doida ardência?
O das horas de mágoa e penitência?
O Príncipe Encantado? O Eleito? O Amante?
E neste sonho eu já nem sei quem sou...
O brando marulhar dum longo beijo
Que não chegou a dar-se e que passou...
Um fogo-fátuo rútilo, talvez...
E eu ando a procurar-te e já te vejo!...
E tu já me encontraste e não me vês!...


(Florbela Espanca)